Gênero: uma questão de gozo
Bruna do Vale
Numa conferência dada por Ernesto Sinatra (AME, membro da EOL e da AMP) no Instituto de Psicanálise da Bahia em maio de 2016 sobre Ideal de gênero versus ideal da sexuação, o mesmo trazia sua hipótese de implosão de gênero: As teorias de gênero implodiram em inúmeras micrototalidades numa tentativa – sempre falha – de definir (e/ou questionar) uma identidade sexual após assegurar uma diferença irredutível com as outras classificações: homossexuais, bissexuais, transexuais, intersexuais, variações queer... até os autodenominados assexuais se agregam à repartição tradicional (SINATRA, 2013).
Tomando como exemplo as tribos urbanas, com a exigência de uma especialização em um campo, Sinatra traz à tona a construção de um tipo de domínio distinto da época onde a regra partia do Todo. Os grupos subdividem-se de forma tendenciosa, reafirmando a diferenciação de seu gozo com o resto do mundo. Toma-se como referência a teoria Queer, que possui diversos subconjuntos agrupados pelos aspectos de orientação e identidade sexual (TISOTT, 2014).
O que ele explica é que há uma necessidade de identificação com o Outro, contudo ele traz que pela quantidade de gêneros que se apresenta nos dias atuais (no facebook americano por exemplo, onde podemos escolher entre 56 gêneros), as pessoas tendem a se individualizar, há um caminho para a dissolução dessas tribos urbanas. Ao contrário de haver uma identificação, vê-se uma individualização.
Com o uso abusivo da internet e de outros meios de comunicação, as relações pessoais e amorosas adquiriram características de isolação (TISOTT, 2014), fazendo existir um mal-estar na identidade sexual e na sexuação. Mal-estar este que sempre existiu, sejam quais forem as épocas e, sem dúvida, as culturas (SOUZA, 2016).
Esse mal-estar aponto para o que Lacan (2003) nomeou como gozo opaco do Sinthoma. É o acontecimento de um gozo que não é um “gozo sentido”, gozo totalizável, que se sente e se localiza no corpo, mas um gozo opaco, deslocalizado, sem lugar no corpo, mas ao mesmo tempo sendo dele (MILLER, 2015). O gozo virá inevitavelmente perturbar as relações das palavras com os corpos. Há algo dessa relação que resta inominável e sem lei. É essa opacidade que a psicanálise se propõe a acolher, dando-lhe voz e construindo-lhe um lugar possível (MACÊDO, 2016).
Sendo assim, a experiência analítica não endossa normas em torno de ideais de conduta, ela é sensível, sim, à força de um desejo inédito e às consequências de se agir em conformidade com esse desejo (MACÊDO, 2016). A psicanálise, ao acolher a singularidade do ser falante, levará cada um a constituir ou inventar algo diante do real, que está posto desde sempre e não pode ser simbolizado, mas é agitado por um movimento (SANTANA, 2015).
Essa abordagem propõe que para além da identidade de gênero, é a posição de gozo do sujeito que irá definir a posição sexuada para além da questão normativa. No artigo “A solidão do Um – Transexualidade e psicose” de Vera Santana (2015), publicado na Opção Lacaniana Online, serie 17, a autora fala que ser homem ou mulher é uma questão de posição assumida pelo ser falante, e é a posição de gozo do sujeito que irá definir a sua posição sexuada, o seu modo de subjetivar o sexo, podendo bascular nessas posições de forma inconsciente ou mesmo fazendo semblante.
Como se pode verificar, o sentido sexual para Lacan é dado pelo significante e não pelo biológico. A posição de gozo que advém do encontro contingente do corpo com a linguagem, e que provoca um acontecimento de corpo, está posta para todo ser falante antes mesmo da conformação de sua estrutura. Para Lacan (1971-1972), o corpo é a sede da encarnação do Um, do significante S1 que se transforma em corpo na forma de gozo.
Quando Lacan utiliza, por exemplo, os termos “lado mulher” e “lado homem” nas fórmulas da sexuação; ou “gozo feminino”, cuja acepção mais aceitável para os estudos feministas seria a de “outro gozo”, não está se referindo à anatomia ou ao gênero, mas ao corpo falante, ao sujeito e a suas marcas de gozo, à realidade sexual do inconsciente e à dimensão sintomática que lhe corresponde (MACÊDO, 2015).
Assim, apesar da identidade de gênero permitir que cada um possa corrigir sua identidade sexual, contrariando a que recebeu em seu organismo (SINATRA, 2013), o que a premissa psicanalítica adere é a de que há determinação de sexo, há uma eleição sexual. No sentido de que, como afirma Vieira (2016), “apesar de mantidos os termos “masculino” e “feminino”, este par no Seminário 20 (1972-1973)não é mais um binário. Não são gêneros, traduzem uma dialética de articulação entre dois modos do gozo se inscreverem no corpo. O gozo fálico, dito “masculino” corresponde à experiência de uma satisfação vivida como conjunto fechado, compacto, totalizado, chamado por Lacan de campo do Todo. Já o outro lado, “feminino” é o do gozo como um conjunto aberto, inconsistente, portanto, sem identidade definida, para o qual Lacan reserva o termo não-todo (2008).
A polaridade binária de gênero passa então a ser regida pela dialética entre o Todo e o não-todo. Jacques-A. Miller (2004) demonstrou que a globalização obedece à lógica do Não-Todo pela subtração produzida da exceção que se encarnava na autoridade do pai e designou como feminização do mundo esse momento da civilização em que o Todo já não pode constituir-se de modo tradicional por aquela extração. Este rito urbano é paradigmático do estado atual da civilização: depois que o pai-Uno se retirou deixando um vazio central, regem a organização social desde o Não-Todo espalhando seus gozos (SINATRA, 2013).
Diante disso, pensando que vivemos numa época onde há um imperativo de gozo: é preciso que se goze, que se consuma, que tenha algo para pertencer a determinado espaço ou para ser alguém, fica para a psicanálise a questão de como tornar o tratamento possível diante dessas formas de gozo.
LACAN, J. O seminário, livro 19:. Ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 1971-1972.
LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1972-1973.
LACAN, J. Outro Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
MACÊDO, L. Analisar o parlêtre em tempos de intolerância, 2015. Disponivel em: link.
MACÊDO, L. F. D. Notas sobre a identidade de gênero e sexuação. Opção Lacaniana Online nova serie, v. ano 7, n. 19, 2016.
MILLER, J.-A. A biologia lacaniana e acontecimento de corpo. Opção Lacaniana, São Paulo, v. 41, 2004.
MILLER, J.-A. O osso de uma análise + o inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.
SANTANA, V. L. V. A solidão do UM - Transexualidade e psicose. Opção Lacaniana Online nova serie, n. ano 6, n. 17, 2015. Disponivel em: link.
SINATRA, E. Corpos toxicomanos, 2013. Disponivel em: link.
SOUZA, H. G. D. Transexualidade: do falo ao corpo. Opção Lacaniana Online nova serie, ano 7, n. 19, 2016. Disponivel em: link.
TISOTT, C. G. Resenha "@s nov@s adit@s: a implosão do gênero na feminização do mundo". Revista Científica Ciência em Curso, Palhoça/SC, n. v. 3, n. 2, 2014. Disponivel em: link.

