vazo de kleinnupsam

Da hetereridade à não homossexualidade real: considerações sobre o feminino, o masculino e o gozo da diferença

Eveliny Barbosa Coelho da Silveira e Philippi Rios da Silva

Levando em conta o contexto da época em que Freud pensou a Psicanálise – início do século XX – perder o pênis – falo – era o que de fato seria mais traumático. A lógica falocêntrica, então, se fez como tal graças a uma política de império patriarcal e machista, onde a posse do pênis por si só se fazia insígnia de representação do poderio social (Brousse, 2015).

Anos mais tarde Lacan vai além do que foi posto por Freud, retira o conceito de inconsciente como sexual, e introduz na teoria psicanalítica o inconsciente enquanto linguagem, de tal modo, não há acesso ao corpo que escape o significante, sendo o falo, significante primordial (Almeida, 2010). Dessa linguagem não cabe outra senão o português, ou o francês, a língua que se fala. O inconsciente pensa com palavras, com pensamentos que escapam a vigilância desse inconsciente que opera na falha do discurso (Lacan, 1964).

É no cerne do falo enquanto significante mestre que se dá o avanço primordial: o complexo de Édipo que outrora se sedimentava na noção crua do possuir, agora passa a apresentar diferentemente a quadríade fundamental – pai, mãe, criança e falo. Mediante a questão “O que quer a mãe?”, a criança responde do lugar de ser o falo, de garantir a completude dessa mãe anteriormente castrada (Almeida, 2010).

É de grande valia compreender que, atualmente, a função paterna não está diretamente ligada a quem tem o pênis orgânico, mas a quem detém o falo – ou àquele que efetuou a castração na criança, inscrevendo nela a metáfora paterna (Almeida, 2010), a interdição simbólica, que barra o sujeito, o limita.

Em função disso, e indo além do que é posto no édipo enquanto responsável pela escolha sexual e de gênero, a psicanálise atribui a dicotomia do gênero pela via das identificações (Brousse, 2015). O inconsciente enquanto linguagem repercute nesse gênero, distinguindo o binário sexual das línguas faladas. Essa identificação viria então, pela via do discurso – ser homem ou ser mulher.

Para Freud (1905) a homossexualidade seria explicada pela relação entre uma predisposição bissexual e o recalque, que por sua vez “vai radicalizar de modo significativo sua concepção no sentido da importância do fator psicológico em detrimento do fator biológico” (Marques, 2010).

Deste modo, a homossexualidade, já não estaria atrelada direta – e erroneamente – à perversão, definindo que o objeto da libido pode ser qualquer um, pois a aderência entre o instinto sexual e seu objeto – na vida sexual – passa sem se perceber pela vida “normal” (Táboas, 2011). O objeto que vem a ser o substituto para tamponar a falta não se faz suficiente para completar o sujeito. Assim, Lacan afirma no seminário 19 “ou pior...” que não há relação sexual que se inscreva (Csillag, 2013).

Em termos matemáticos, não haver relação indica que não é permanente a ideia de completude, justo que cada vez que um objeto venha a ocupar esse vazio, mais se evidencia a impossibilidade de satisfação plena (Marques, 2010), o que aponta o desejo como pura negatividade, uma resignação frente a consciência de um gozo impossível (Safatle, 2017).

Independente do sujeito ser homo ou heterossexual o objeto é o que há de mais variável na pulsão, e partindo da eterna presença da hiância entre os objetos pulsionais, na busca do das Ding – a coisa freudiana – que o sujeito será relançado na cadeia significante onde a falta se tornará o motor da própria estrutura do desejo, enquanto promessa que jamais será cumprida (Marques, 2010).

Interpreta-se a sexuação como “forma pela qual homens e mulheres, relacionam-se com seu próprio sexo, bem como as questões da castração e da diferença de sexos” (Chemama, 1995). Não obstante, as fórmulas da sexuação estão relacionadas com as posições psíquicas do sujeito frente as questões sexuais – passando pela via da identificação, os sujeitos podem ser masculinos ou femininos nas suas relações, independente do seu órgão genital (Vieira, 2004), e essas posições seriam sintomas, na tentativa de suprir a relação sexual que não existe (Santos, 2009).

Suscitar o debate acerca das fórmulas da sexuação bem como das posições que são assumidas no âmbito das relações prescinde de uma discussão anterior e que subsidia o caráter plástico desses modos de subjetivação na contemporaneidade: o enfraquecimento dos Nomes-do-Pai.

Enquanto matriz das proibições de outrora, a lei paterna, que desempenhava a função de barrar o gozo desenfreado tem seu poderio minado diante do império do gozo tão fortemente ordenado no seio social.

Dessa forma, a noção de que as posições sexuais subjetivas – feminino/faltoso e masculino/fálico – são irrevogavelmente correspondentes ao sexo biológico – XX E XY –, representa um sufocamento da realidade psíquica dos sujeitos em detrimento ao que afirma a demarcação no corpo.

É válido ressaltar que essa lógica não serve somente ao hétero ou ao homossexual. Em verdade, se aplica a ambos, já que este ou aquele rótulo não possuem lugar privilegiado dentro da teoria e clínica psicanalítica. Aproximando à visão não heterocentrada lacaniana, o sujeito se defronta com a diferença sexual – que não se trata de forma alguma de uma essência ou realidade transcendental, mas sim de lugares de masculino-feminino provenientes da cultura – e diante deste confronto não apreende um saber sobre essa diferença, daí a impossibilidade irresoluta e inconsciente: não há saber sobre o sexo, logo, não há relação sexual. O que se denomina homo ou heterossexualidade são apenas posições imaginárias, dentre tantas outras, para sustentar a constatação desse vazio no real (Cunha, 2013).

Portanto, deve-se compreender que na relação entre pessoas de sexos diferentes, a posição masculina e feminina não deve acontecer em concordância com a genitália. Não necessariamente o homem peniano será o homem fálico, bem como a mulher, na posse da vagina, não assegura a sua inscrição no lado do não-todo.

A questão que se coloca ali é a de como situar-se no Outro sem apoiar-se na falta, que no Outro agora falta. Todo o trabalho será o de produzir algo que estabilize um circuito. A partir daí haverá separação possível entre eu e Outro, público e privado, dentro e fora. Isso não se faz na queda de braço, pois antes da separação não há pulso do Outro a que se agarrar. O limite, neste caso, será uma invenção que arranque algo desta massa disforme que é o Outro nãotodo. Como se faz isso? Como cortar-se um rio com uma faca? E ainda por cima sem que haja um pai para fornecer o manual de instruções? A resposta de Lacan é, com o sinthoma (Vieira, 2004, p. 05).

Cabe então, compreender a noção de Sinthoma, que diferente do sintoma freudiano, não se cobra decifração. Lacan traz o sinthoma como algo do real, é um traço do sujeito diretamente ligando ao real inconsciente – feito de um gozo sem nome, que escapa ao Outro.

Entendendo o sujeito como caráter universal, na dedução do ponto cego da estrutura, para que se possa abordar o sinthoma, é essencial abordar pela via do objeto – o objeto a lacaniano (Vieira, 2004). Assim, a resposta para a questão como ocorre a formação e arranjo das posições sexuais subjetivas nas relações entre pessoas do mesmo sexo vem de Quinet (2015) e nos diz que um homem que se inscreve do lado do não-todo, buscaria eleger seu parceiro do lado todo fálico a partir do gozo fálico, “encontrado no corpo desse outro ou em posição social, ou qualquer outro atributo fálico” (p.98), isso indica pensar que esse homem não-todo, ao se relacionar com o seu parceiro fálico, se reduziria a objeto a localizado no Outro lado.

Elucidadas essas questões, a diferenciação de gênero – e sua carga de definição de posições e papeis – via anatomia se apresenta como o que realmente é: uma limitação insidiosa e tóxica para as possibilidades que se apresentam fora do “quadrado” binário.

Diante de tudo, deve-se considerar a necessidade quase que instintual de o sujeito se encontrar com o seu diferente para que haja sexo: um masculino e um feminino – para haver sexo, tem que ter ambos os sexos, pois aqui se fala de posição sexuada (Quinet, 2015). De tal modo, é importante entender que não existe homossexualidade real, pois não há a possibilidade de haver sexo na igualdade do sexo.

Referências

Almeida, F. G. M. (2010). Falo, objeto a e fantasia: contribuições de Jacques Lacan na clínica com crianças. (Dissertação de mestrado, PUC-Rio, Rio de Janeiro). Recuperado em 24 de março de 2017, de link

Brousse, M-H. (2004). O que a psicanálise sabe das mulheres como ‘gênero’. Lacan Quotididen 494, (pp. 4-8). Recuperado em 24 de março de 2017, de link

Chemama, R. (1995). Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas.

Csillag, M. C. (2013). Sobre a não-relação sexual: na teoria lacaniana na contemporaneidade. Leitura Flutuante 5(2), (pp. 35-52). Recuperado em 24 de março de 2017, de link

Cunha, E.L. (2013). Sexualidade e perversão entre o homossexual e o transgênero: notas sobre psicanálise e teoria Queer. Revista EPOS, 4(2), 00. Recuperado em 24 de março de 2017, de link

700X2013000200004&lng=pt&tlng=pt.

Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. v. 7. In: Edição standard brasileira de obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Marques, L. R. (2010). As homossexualidades na Psicanálise. Trivium: estudos interdisciplinares, (pp. 467-483). Recuperado em 30 de março de 2017, de link

Quinet, A. (2015). Homensexual e heteridade. Stylus (Rio de Janeiro), (31), 97-101. Recuperado em 24 de março de 2017, de link

Safatle, V. (2017). Confrontar-se com o inumano. Revista Cult [edição especial Jacques Lacan além da clínica], 8, 14-17.

Santos, T. C. (2009). Sobre a clínica da psicanálise de orientação lacaniana: dos impasses da sexuação à invenção do parceiro-sinthoma. Ágora 12(1), (pp. 9-26). Recuperado em 24 de março de 2017, de link

Táboas, C. G. (2011). Século XXI: a escolha do sexo no labirinto. Opção Lacaniana Online nova série 5, (pp. 1-14) Recuperado em 24 de março de 2017, de link

Vieira, M. A. (2004). A (hiper)modernidade lacaniana. Latusa, 9. (pp. 69-82). Recuperado em 24 de março de 2017, de link