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Vênus em Marte

Geovani Cardoso dos Santos, Alexandre Ribeiro Monteiro e Philippi Rios da Silva

Párnaso (1497– 1497) é um famoso quadro renascentista de Andrea Mategna. A obra, imagina o Monte das Musas, lugar que segundo a mitologia greco-romana seria uma das várias residências de Apollo, deus da juventude, da música e da luz (Issa & Dettiene, 1989). Acima, no ponto central superior da tela, estão Marte, o deus romano bélico, vestido com sua armadura de guerra, e Vênus, a deusa do amore da beleza, presidindo a cena. Eles se encontram sob um monte que leva à cidade dos deuses (Burckhardt, 1991). Ao fundo, atrás dos dois, é interessante observara imagem de um colorido e destacado divã.

Desde a Antiguidade a idealização da figura de Marte, que representa a bravura do guerreiro masculino, e Vênus, que conserva tudo aquilo que faz referência à beleza feminina, servem como um recurso para definir o que é uma ou outra coisa (Burckhardt, 1991). A colagem que foi feita para ilustrar o cartaz desse evento, que não coincidentemente a utiliza como referência, lhe desfaz completamente, misturando um no outro as características que, supostamente, lhe diferenciariam.

Uma vez que não se nasce homem, nem se nasce mulher, não há doutrina que possa dizer tudo sobre a sexualidade humana, desnaturalizada pelo atravessamento da linguagem, inconsistente e faltosa (Quinet, 2017). Para Lacan (1960- 1988), o encontro com o sexual declara a falha simbólica, pois coloca em evidência aquilo que não pode ser inscrito no campo da linguagem. Não há referência. Nesse sentido, a inexistência da relação sexual, significa dizer que não há um saber, a respeito do encontro com o Outro sexo, e por essa razão, ele é sempre dissimétrico, traumático e insatisfatório. (Lacan, 1993).

A relação sexual não existe ("Il n'y a pas de rapport sexuel”). Lacan (2003- 1972) usa a palavra rapport, traduzida como relação, mas que em francês tem a conotação de complementariedade, para denunciar uma simetria inexistente. Sendo assim, dizer que a relação sexual não existe é o mesmo que dizer que, na ausência de um ciclo biológico pré-definido, tal qual acontece com grande parte dos outros animais, o ser falante precisa dar sentido a sua sexualidade, através da relação singular com o seu gozo, pelas vias possíveis de escoamento ofertadas pela cultura (Lacan, 1993).

O encontro com o sexual é, nesse sentido, um engodo, pois tudo que o ser falante precisa saber sobre o sexo, o seu mesmo e o do outro, é da ordem do real (Csillag, 2013). Do não saber. E, portanto, precisa ser inscrito através da invenção sintomática (dizemos, singular) de cada um. Se existe alguma predisposição, tal como nos diz Freud, ela é bissexual. (Quinet, 2016). Aliás, façamos justiça com ele, e desfaçamos os maus entendidos, uma vez que nos parece injusto falar de uma psicanálise heteronormativa, quando ainda no seculo XIX, ela nos diz da satisfação infantil que usa todos os buracos do corpo no circuito que a sua pulsão faz.

A criança polimorfa, goza! E faz uso do circuito pulsional (oral, anal, escópico e invocante), como ponto de intermédio na relação com os objetos externos que existem e lhe circundam. (Parat, 2011). Freud nos diz ainda da pré-disposição masculina e feminina que existe em cada sujeito, independente dele ser macho ou fêmea.

Inscritas ainda na idade primitiva do infante essas inclinações se organizam na relação edípica, através de um direcionamento "consolidado" que seria inibido da consciência do sujeito em sua idade adulta (Vieira, 2009). É de nosso conhecimento, no entanto, que no inconsciente, nada se perde, nem se apaga, tudo se transforma (Quinet, 2017).

Nesse sentido tendo a mãe como objeto sexual e sendo um objeto sexual para o pai, o pequeno ser falante, que pode ser garoto ou garota, tem, um estágio primário de sua sexualidade onde ele pode experimenta-la de um ou de outro jeito (Vieira, 2009). Sendo assim, não estamos falando somente de uma bissexualidade generalizada, no desenvolvimento da sexualidade humana, estamos falando de uma bissexualidade que é anterior a eleição do objeto, resultado da travessia edípica.

A eleição desse objeto de gozo, independentemente do sexo que tenha, "recai igualmente em objetos femininos e masculinos - tal como ocorre na infância, nos estágios primitivos da sociedade e nos primeiros períodos da história.” (Freud, 1905, p. 146, nota acrescentada em 1915). O sexo biológico, portanto, não é o farol no oceano extenso que o ser falante é sentenciado a navegar exaustivamente, em sua conflituosa conformação identitária.

As identificações não levam, necessariamente, à coincidência socialmente esperada, e nem sempre consegue supor o desejo por um parceiro do sexo oposto (Haydee, 1999) se é que podemos falar assim. O que queremos dizer é que mesmo as identificações ”normais” não garantem ao sujeito uma suposta naturalidade em relação ao seu desejo.

Quando diz, "não há relação sexual” e "a mulher não existe” Lacan nos convida a compreender essas identidades através da impossibilidade de nomeá-la, uma vez que a essas cabem o esforço subjetivo de lidar com o real do sexo (Vieira, 2016). Os estudos de gênero, também operam nesse sentido, no entanto, efetuam uma segunda generalização, a da inexistência de toda identidade sexuada (Musachi, 2016) Para esses discursos tal como nos diz Musachi "só há um reconhecimento legítimo, o dos semblantes, a mulher não existe, o homem tampouco. Só é possível entender o processo de identificação sexuada através de sua montagem particular” (2016, p.1).

A Psicanálise, portanto, por enxergar uma outra possibilidade, que não a das determinações sociais, culturais ou de gênero, nos fala de uma escolha engendrada a partir de uma Outra Cena. Uma cena que lhe é estranha, mas ao mesmo tempo tão íntima, objeto êxtimo, tal como diz Lacan. De acordo com Quinet, (2013)

o sujeito escolhe o Outro do amor como uma escolha forçada, que constitui sua alienação - menos pior que o desamparo da ausência do Outro. Trata- se da escolha do Outro do sentido, ou seja, da linguagem, aquele que dá ao sujeito o apoio do simbólico. Mas para entrar na sexualidade, ele deve, em seguida, poder separar- se , pois, entre o sujeito e o Outro, há o objeto a, causa do desejo, que lhe dará a orientação subjetiva e sexual em sua singularidade. É esse o objeto que o sujeito alojará no parceiro sexual de sua escolha” (Quinet, p. 132).

Com isso, os manejos possíveis só serão dados pelas coordenadas de cada caso. Cada um dirá como acendeu ou rechaçou o próprio sexo; cada um dirá como se virou ou ainda se vira com o sexo do Outro (Badari, 2014), será sempre esse sujeito, e tão somente ele que saberá dizer as estratégias que inventou para suportaro vazio do sexo e o excesso do gozo que lhe invade. Em outras palavras, somente cada sujeito é quem dirá como vive, em sua singularidade, sua desordem. Uma sexualidade que não lhe dá nome e nem lhe pede. Logo, cabe a cada um destes sujeitos passar a se virar melhor com ela, caso queira e caso possa.

Desse modo, a psicanalise nos ocupa de um outro lugar, de uma outra perspectiva. Uma compreensão onde se subtrai a importância de falar de identidades sexuadas, quando se considera o próprio sexo um mistério (Cunha, 2013, p.8) que só faz sentido quando se parte de uma tentativa desse mesmo sujeito de lidar com o fantasma do seu desejo.

Falamos, portanto, de um gozo caótico, desorganizado que surge, e insurge, perturbando e desfazendo qualquer possibilidade de laço da imagem do sexo com a imagem do corpo organismo. (Vilella, 2008). Se o pênis na cena, existe ou não, pouco interessa. Ele até consegue através de sua significação fálica, é importante dizer, sustentar as identificações na eleição do sexo. Mas ele não basta. No encontro com o vazio do sexo não há um texto. Há um convite para que se possa produzir um saber fazer com esse gozo (savoir y faire) violento que habita o corpo.

A sexuação, termo utilizado por Lacan para diferenciar sexo de posição sexuada, é algo que vai mais além da anatomia e da questão de gênero (Quinet, 2003). Lacan nos fala de uma outra partilha dos sexos, uma partilha onde o homem – e a mulher – são livres para se colocarem de um ou de outro lado. Para isso, Lacan dá outro nome para o masculino e o feminino. Todo e não-todo.

De Todo fálico, Lacan chama aqueles que detém o gozo fálico (o que equivaleria a posição masculino) e de Não-todo, aqueles que possuem o Outro gozo. Um gozo não-todo submetido a castração (a posição feminina). Quinet (2017), contudo, nos diz a importância de entender a "A ‘sexuação' na teoria de Lacan como a possibilidade que todo ser humano possui de se posicionar de um lado ou do outro na partilha dos sexos, independente do sexo genético, hormonal, anatômico ou social” (2017, p. 30).

Desse modo, um homem ou uma mulher, podem assumir qualquer dessas posições psíquicas e até se identificar- se com as duas, mas o que persiste é a diferença dos sexos, o Um e o Outro nas relações. Diferença que, de acordo com essa fórmula se daria, através do lugar que o sujeito colocaria o parceiro (e por consequência, ele mesmo), reduzindo ao objeto a, localizado no Outro ou buscando se inscrever do lado do todo a partir do significante fálico. (Quinet, 2015, p.98). Assim independente de qual identificação sexual ou de gênero que os sujeitos venham a ter, é a direção tomada para um dos lados da partilha que irá direcionar o modo como esses sujeitos se relacionam.

Se na pintura de Mategna, as diferenças de Vênus e Marte, definem quem e o que cada um é, observamos um outro desenho nas leituras de Freud e Lacan. Uma cena bricolada pela claudicação e pela repetição sintomática daquilo que conhecemos pelo nome de Inconsciente.

Referências

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Burckhardt, J . (1991). A Cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. São Paulo: Companhia das Letras.

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Cunha, E. L. (2003) Sexualidade e perversão entre o homossexual e o transgênero: notas sobre psicanálise e teoria Queer. Rev. Epos, Rio de J aneiro , v. 4, n.2.

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