As novas formas de se relacionar frente ao mito da mãe virtual
Alexandre Monteiro Ribeiro e Philippi Rios da Silva
Quando em psicanálise nos debruçamos sobre o estudo da sociedade contemporânea e suas vicissitudes, é de vital importância esclarecer os moldes nos quais a subjetivação se adapta a essa nova realidade. Partindo do pressuposto de que essa época é marcada por um pai que declina, novas formas e configurações se farão presentes em novos modos de gozo, bem como em novas formas que o sujeito possa encontrar para fazer laço com o social. Decorrente desse enfraquecimento do nome-do-pai, onde o simbólico padece o imaginário tenta suturar (Vitale, Iglesias & Silva, 2014).
O corpo continua tendo o seu valor para a psicanálise já que para se falar, necessita-se de um corpo, e na análise não apenas se fala do corpo, mas se fala o corpo (Brodsky, 2016). O corpo nada mais é que aquilo que um lugar marcado e que experimenta afetos, que é atravessado por eles (Laurent, 2016). Hoje, os adolescentes passam a construir o seu corpo partindo da perda dos referenciais causado pelo enfraquecimento simbólico contemporâneo onde o pai já não é mais um norte, já não há mais o aumenozum lacaniano que assinala a exceção (Sena, 2016).
A imagem nesse sentido aparece nos novos modos que os jovens encontram para se relacionar frente a impossibilidade de identificar-se ao Outro. Buscando referências entre seus pares, encontram nas redes sociais e no mundo virtual um novo modo de constituir grupos e de se encontrar com seus semelhantes, buscando um suporte homogêneo de identificação (Lima, Castro & Melo, 2011). Não obstante, passam a reinventar para si formas de apresentar seus corpos de modo a adaptar-se a essa nova realidade inovadora que a internet possibilita: de ser quem se quer ser. E ainda que busquem se situar no campo de ser diferente, buscam formular essa identidade a partir das pequenas semelhanças com os pares virtuais. Os sujeitos passam a buscar referências em grupos de seus semelhantes, e se desfazem dos outros quais se diferenciam – do narcisismo das pequenas diferenças (Freud, 1917).
No mundo cibernético os adolescentes encontram cenário fértil e infindável para dar conta de seus desejos e identificações, e atrair para si um gozo escópico, que os orienta a expor cada vez mais a sua imagem – ou a nova imagem criada para habitar esse novo mundo. O olhar em sua voracidade pede sempre para ver mais, para que mais seja mostrado, exibido, publicizado. “O olho é um órgão glutão que se satisfaz com a imagem. Satisfazer-se, gozar com as imagens, parece ser um traço da época em que vivemos” (Brodsky, 2016, p.44).
Nesse novo horizonte velho surge um novo mito para dar conta de ordenar, um líder que orienta e conecta os usuários dessas redes. Aqui, vê-se surgir o novo mito da mãe virtual, democrática, que se ocupa de agrupar os seus filhos com seus respectivos pares no novo mundo (Otero, 2013). Essa nova mãe não barra. Pelo contrário, ela é permissiva. Permite que seus filhos estudem, trabalhem, namorem, se relacionem. Num mundo de amores líquidos, fluído, inconsistente – no sentido empregado por Bauman (2004) – ela auxilia os usuários do espaço virtual a encontrar-se no emaranhado de significações e identificações possíveis.
Otero (2013) supõe que esses modos de se relacionar fazem parte integrante e essencial de novas formas de laços sociais, e além disso, “a comunicação textual goza de posição proeminente na comunicação entre as pessoas” (p. 109). Imbuídos nessas relações mediadas pela imagem e por um novo discurso, os jovens se vêm forçados, de modo inconsciente, de desejar ter e ser que não são seus, sorrateiramente alienados ao desejo desse Outro, o da mãe virtual. O que se evidencia é que nessa sociedade fortemente afetada pelo advento das tecnologias no campo da comunicação, os sujeitos já não podem mais gozar de suas individualidades, pois a desconhece. Face ao novo imperativo do supereu contemporâneo, respondem cegamente a ordem do gozo sem limites (Laurent & Miller, 1998).
Por fim, o que se nota é que, ainda que os jovens digam que na internet eles são mais abertos, mais verdadeiros, eles afirmam que não confiam tanto assim nos outros que se relacionam, e aliás, não conseguem se relacionar de modo duradouro (Lima, Castro & Melo, 2011). As relações começam e terminam na mesma velocidade. Percebe-se cada vez mais frágeis as relações justamente porque a sociedade elegeu a imagem como seu representante principal, mesmo sabendo que ela não é suficiente para dar sustentação a existência. É aí que vemos a problemática entre os adolescentes. Nessa relação mediada pela imagem do tudo possível e nada é confiável rouba a sua singularidade (Otero, 2013). Num mundo de totem sem tabu, onde a imagem tem status de primazia, os sujeitos participam de um jogo perverso sem sequer perceberem que são protagonistas e vítimas.
Bauman, Z. (2004). Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Brodsky, G. (2016). Meu corpo e eu. Revista Cult, ano 19, n 211, 42-44, São Paulo, Ed. Bregantini.
Freud, S. (1917). O Tabu da Virgindade. In: _______. Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1996. v.11, p. 179-196.
Laurent, E. (2016). O corpo falante: o inconsciente e as marcas de nossas experiências de gozo. Revista Cult, ano 19, n 211, 42-44, São Paulo, Ed. Bregantini.
Laurent, E., Miller, J. A. (1998) O Outro que não existe e seus comitês de ética, in: Revista Curinga. Escola Brasileira de Psicanálise. Belo Horizonte, n. 12, set., 1998, p.4-18.
Lima, N. L., Castro, C. F. S., Melo, C. M. (2011). A identificação na contemporaneidade: os adolescentes e as redes sociais. Revista eletrônica do núcleo Sephora, v6, n12, RJ. Disponível:link em 6 julho 2017.
Otero, C. (2013). Os laços sociais na era virtual: um novo discurso?. [Dissertação de mestrado] Universidade Veiga de Almeida, RJ. Disponível: link em 6 julho 2017.
Sena, B. (2016). Como as crianças e adolescentes constroem o seu corpo hoje. Disponível:link em 7 julho 2017.
Vitale, F., Iglesias, M. e da Silva, R. F. (2014). O império das imagens. Texto apresentado como argumento para o VII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana. Disponível:link em 7 julho 2017.

