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Bullying, a violência entre adolescentes e o silêncio

Alexandre Monteiro e Lizandra Araújo

Ao pensarmos a violência em psicanálise, temos a distinção necessária com a agressividade, em que a primeira se configura como constituinte do sujeito e da relação com seus objetos, e a segunda denota o encontro com a linguagem, que não se dá sem consequências (LACAN, 195354/1986, p. 198) e direciona as vias de gozo para a Pulsão de Morte (FREUD, 1920 e 1930-29/1976).

Na adolescência, a agressividade é a forma que o sujeito tem de posicionar suas frustações quanto a sua satisfação barrada pelas exigências culturais. Segundo Freud (1921/2011), a única relação isenta de afetos de aversão, hostilidade e intolerância seria a da mãe com seu filho. Todas as demais compartilham dessas, nomeadas pelo mesmo de pequenas diferenças. Dessa forma, o narcisismo das pequenas diferenças mostra-se na recusa de qualquer pormenor que venha diferenciá-los. Assim, a agressividade volta-se a esse outro que apesar de estranho é um outro próximo.

Como um ciclo, o adolescente frustrado em seu desejo elege um outro como seu alvo que lhe é próximo mas ao mesmo tempo estranho, o que causa angustia. Não conseguindo significar pela linguagem, escapa por outra via, da destruição desse outro. Onde o simbólico tentaria barrar e não consegue, a agressividade daria uma forma de significar, podendo as palavras agressivas levarem ao ato agressivo (GUERRA; PINHEIRO, 2011).

Nesse sentido, o bullying por sua definição tem como uma das suas características a repetição, repetição essa motivada por essa incongruência entre o desejo individual e as regras sociais e que se manifesta de forma violenta. Esse desejo frustrado do qual a linguagem não dá conta de simbolizar se dá na ordem da angústia, angústia da busca pelo gozo.

No filme “Depois de Lúcia” (2012), por exemplo, a protagonista Alejandra, após iniciada em um novo grupo social, teve uma relação sexual exposta para toda a escola. Desse ponto em diante, a novata é levada a posição de alvo para as hostilidades e violências de diversas naturezas, em cenas que foram se agravando com o tempo, indo de humilhações ao abuso sexual. Diante das constantes agressões, no entanto, a protagonista mantem o silêncio, não denuncia e nem se defende das agressões. Permanece silenciada como se acatasse essa posição de quem merece ser castigada pela relação exposta, ser socialmente rechaçada. Diante disso, parece repetir momentos depois, o silêncio que se faz presente tanto em que sofre quanto em quem fez sofrer.

Seus colegas assumem então a posição de agentes condenadores desse ato que fora exposto, pois alguém fez explicitamente o que desejam e não podem fazer, ou até fazem, mas não podem dizer. Assim surge esse estranho tão próximo, o sujeito que goza no desejo comum, mas por assim gozar, é estranho a mim (GUERRA; PINHEIRO, 2011).

Fazendo um paralelo com a série “Os Treze Porquês” (2017) a protagonista Hanna teve uma foto divulgada de um encontro às escondidas, juntamente com um boato de relação sexual que se assemelha ao que é visto no início de Depois de Lucia. A posição que personagem assume durante sua história, entretanto, diferente da de Alejandra, é de buscar por ajuda. Apesar disso, a mesma é ignorada no seu pedido. O silêncio, nesse caso, não vem da personagem, mas do Outro. Em ambos os casos, o silenciar teve como consequência a saída de cena, à qual ambas as personagens recorrem no final. O desfecho de Hanna possibilitou, no entanto, a nota de suicídio, que pela ótica psicanalítica, além de atestar a íntima relação entre este ato e o laço social, expressa uma mensagem endereçada ao Outro (COUTINHO, 2010). Diante do reconhecimento de uma fala que antes não fora ouvida, as tais fitas contando toda trajetória e as razões para tal ato circulam e ganham peso entre os personagens.

As consequências desses atos violentos tiveram retornos também violentos: o peso da culpa que os personagens da série que tem que lidar diante do que sobra de Hanna, as fitas, e o desfecho que o pai de Alejandra deu ao garoto que divulgou a relação e a sensação de culpa que os outros colegas de classe tem com o desaparecimento mostram o retorno dessa pulsão. Para Freud (1917, in COUTINHO, 2010), o suicídio seria uma autoagressão dirigida a um objeto libidinal introjetado, ou seja, um desejo de morte dirigido a outra pessoa que se volta contra o próprio sujeito na forma de autopunição.

Pensando no ciclo do gozo, onde para gozar precisa de um circuito que se locomova para fora corpo, perpasse o objeto e que retorna posteriormente, essas obras mostram como a pulsão de morte que impera nesse gozo volta de forma destrutiva onde o objeto sai de cena. Assim, podemos entender como a linguagem poderia barrar de certo modo esse circuito e interromper o gozo destrutivo e suas consequências, permitido pelo silêncio, ou o silenciar.

Dessa forma, o silêncio aparece em ambas as histórias, mas principalmente nos contextos familiares: Alejandra reproduzia o silêncio de seu pai, saindo de cena no insustentável, fugindo e se isolando como solução. Hanna, invisibilizada no contexto familiar diante dos problemas financeiros que a família passava e depois de suas tentativas sem sucesso de ser ouvida, cai enquanto objeto, reaparecendo no Real aquilo que não se atualizou à luz do simbólico (LACAN, 1998).

Nesse sentido, viabilizar um redirecionamento da pulsão de morte pela linguagem é uma das propostas da clínica psicanalítica, priorizando a singularidade do sujeito (GUERRA; PINHEIRO, 2011). Possibilitando a reescrita do seu gozo e dando a oportunidade assim, de realizar novos modos de lidar com seus desejos, ou seja, interromper o silêncio, dando espaço para simbolizar o desejo por via da linguagem, antes que esse escape em ato.

Referências

13 Reasons Why. Direção: Brian Yorkey. Produtora: Netflix. 2017.

COUTINHO, A. H. S. Suicídio e laço social. Reverso, Belo Horizonte , v. 32, n. 59, p. 61-69, jun. 2010 . Disponível em link. acessos em 09 jul. 2017.

DEPOIS de Lúcia. Direção: Michel Franco. Produtora: Imovision. 2012. 1 DVD (1h 43min).

GUERRA, A.M.C.; PINHEIRO, M.C.M. A escrita da violência na adolescência. In. O Psicanalista, sua clínica e sua cultura. 2011, Fortaleza. Tópicos temáticos.

FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer. Obras completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

_________ (1921/2011). Psicologia das massas e análise do eu, in Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.

LACAN, J. (1953-54). O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1986.

________ (1964) O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.