vazo de kleinnupsam

Considerações Psicanalíticas acerca do Desejo do Adolescente na Contemporaneidade

Camila Mirelle Calaça de Sá

O fenômeno do adolescer é marcado por polos; se em outras épocas não havia tanta visibilidade de suas vivências enquanto sujeito, na contemporaneidade, povoa as discussões clínicas e acadêmicas. Se anteriormente não se nomeava esse espaço cronológico entre a criança e o adulto, hoje, percebemos várias nomeações deslizando: adolescentes, aborrecentes, teenagers, teen... E entre os denominados grupos ou “tribos” esse vocabulário pode se estender ainda mais, a propósito, Marques (2013) aponta a partir de sua pesquisa sobre a passagem de tornar-se adulto, que uma outra característica desse momento é a entrada de diversas palavras na linguagem para se referir a esse sujeito, possivelmente como forma de aplacar a escolha entre os sexos, na busca pelo reconhecimento do seu desejo. Para Miller (2015), a abordagem se dá em que “tudo é artifício significante” - sejam palavras utilizadas, sejam nas características que o formam. A construção parece marcar bem o que se chama de adolescência.

Mas o que a Psicanálise nos diz, quando se trata do desejo? O desejo está como ordenador dessa rede de significantes que nos abastece o tempo inteiro. Esse ordenador, vem a partir da falta fundante a qual somos submetidos no complexo de castração, uma falta que faz emergir o que do desejo é particular de cada um, como é salientado por Lacan (1999) em seu seminário 5. O referido autor, ainda nos contempla com alguns apontamentos sobre o que seria esse tal desejo, ou do mais, que a mola do inconsciente é articulada ao desejo de reconhecimento do sujeito; o desejo chama, demanda incessantemente aquilo de mais peculiar, de mais substancial.

Como se encontra o desejo no que se designou chamar de adolescência? Se tratando da “idade crítica [...] do desejo” como Antelo (2016) se propõe a nomear o fenômeno da adolescência, o desejo é trazido aqui como “consciência do apetite”. É aquilo que não cessa de circunscrever nos mecanismos inconscientes. É o desejo que permeia o corpo, o “golpeia’ de forma incessante, que em meio à possibilidade de se inscrever na rota dos significantes, pode ir além disso, marcando o corpo com esse apetite dilacerante de ser reconhecido. O desejo é de tal intensidade que na busca por palavras que deem conta dessa existência – mesmo sem conseguir, já pela eterna falta estrutural - o corpo entra nesse rol do apetite consciente. Como já foi dito logo acima, o adolescente urge com um arsenal de significantes que se endereça ao Outro. Uma variedade de costumes, gírias, arte, silêncios, podem indicar o quê de cada subjetividade em formação, quer ter como forma de ascender como sujeito desejante.

Contudo, para constituir-se como sujeito desejante é imprescindível que a importância do lugar do vazio seja dada, como nos reporta Lacan em seu texto A Pequena Diferença, retirado do seminário 19. Esse lugar faria emergir a não relação sexual que o ser falante vai galgando em interação aos outros seres, possibilitando o que Lacan (2012) intitulou de “efeitozinho” da linguagem. O efeito se constitui no enodamento das diferenças que lhe são apresentadas no decorrer de suas vivências, principalmente no que tange o primeiro contato com a falta, a falta causadora do desejo, falta advinda do que o ser falante é submetido – o complexo de castração (LACAN, 2012). E se para ter acesso ao outro sexo – notar inconscientemente a pequena diferença entre o que se denominou de posição sexual do sujeito imerso na linguagem - é necessário pagar um preço, esse preço está alocado no gozo de cada história edípica (LACAN, 2012). Portanto, vai se configurando a passagem da diferença entre os órgãos para uma amarração junto à cultura onde o instrumento para essa passagem é o significante, ele é que vem tentar dar contorno ao que se é impossível de se dizer; a agudez do lugar vazio, do desamparo fundante do desejo.

A psicanalista Marina Recalde em entrevista para a XI Jornada da EBP-SC coloca a incidência do Outro Social nessa transição como influente não só a nível de discursos sobre o corpo, mas principalmente sobre o que ele tem a dizer a respeito do que vai sendo apresentado para esse jovem. Percebemos com o avançar da contemporaneidade, um deslocamento do modelo principal – a função paterna – para modelos cada vez mais fluídos, mais flácidos. Nota-se, que a transmissão de um saber fica cada vez mais sem um norte, no qual o adolescente vai se apoiando em discursos desse Outro Social de forma obtusa, principalmente, com fórmulas mágicas encontradas nos meios de comunicação eletrônicos/midiáticos; de maneira que aplaque o ser ou não ser daquele sujeito. O desejo é incidido por esse Outro, que ora ou outra fala para a gente ou até mesmo pela gente, com modelos cada vez mais volantes e instáveis.

Miller (2015) ainda ressalta que, se antes tomavam o pai como modelo para as identificações, atualmente, os adolescentes tomam uns aos outros como forma da constituição desse saber sobre si. Todavia, Silva (2016) destaca no Argumento do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, que o adolescente luta por outras identificações que não as do pai, identificações que a meu ver, estão mergulhados nessa cultura, que, entretanto, não mais se atém para os ritos de passagem utilizados para esse deslocamento do lugar de criança para um lugar de adulto. A grande mídia produz modelos prontos do que se chama adolescente não ofertando um espaço para uma produção singular, respeitando o tempo lógico de cada menino e menina. Notamos, protótipos de adolescente estampados nas tv’s, capas da Capricho, e em informações que circulam na trama virtual sobre o que se deve ser, como se houvesse um padrão a ser disposto e seguido por tal adolescente. E o seu desejo, onde se localiza?

Do mesmo modo, se faz importante acenar para o que Silva (2016) ainda pontua: os imperativos de gozo. Esses imperativos – vindos especialmente do saber do mestre, do capital – colocam para o adolescente uma única forma de ser, conduzindo-o muitas vezes a extremos, diluindo o desejo ou aquilo do gozo particular de cada um. A partir de uma fragilidade dos significantes do nome do pai, os significantes do grupo se fazem perceber por entre o adolescer. Contudo, há de se pensar, que frequentemente esse trânsito da puberdade é vivido pela fluidez, necessitando da intervenção do outro para que nesse deslocamento de lugares, ocorra o desligamento das figuras parentais e a entrada na cultura, sendo assim, se pronunciando pelos seus atos, falando por si.

Portanto, talvez indique, uma saída da miríade dos fantasmas dos pais passando para a construção de suas próprias identificações, suas manifestações, e tendo seu desejo reconhecido de maneira singular, levando em conta, as facetas contemporâneas que acometem os diversos âmbitos da vida do adolescente: a sua passagem para a vida adulta, a relação com o grupo de iguais, o discurso individualista e consumista, a decaída do nome do pai... Resvalando-se para os imperativos de gozo, onde ordenam que o sujeito goze, goze sem limites, dado que, a lei se encontra frouxa. Assemelha-se assim, a uma vida em excessos: quantas bocas beijou no último mês, quantas atividades faz durante a semana, ou até quanto tempo passa estudando para as diversas opções que existem de cursos universitários... Preza-se pela quantidade e não mais pela qualidade das relações.

Fundada nessas considerações, é essencial refletir o que a clínica tem a contribuir para o adolescente e o seu desejo. Marques (2013) aponta para um maior entendimento de quê modos o sujeito adolescente entra na vida adulta, acompanhando-o na tradução do enigma de sua existência e conferindo-lhes a possibilidade de um novo dizer, um dizer que se arrisca, deixando parte do gozo que se mostra em jogo. Recalde (2016) compartilha um pensamento semelhante ao dizer do acompanhamento do tempo de esperar, recortando parte do excesso que irrompe nos processos desconcertantes, no qual esse sujeito possa encontrar um Outro em que possa dirigir o seu desejo; diz também, de formar um produto acerca do momento que atravessa, escutando a saída exogâmica de cada um, numa via que aponte para o desejo, para uma vida desejante. Um sujeito que como Lacan (2012) explicitou, atente-se para o lugar de vazio, não-todo, em que possa subsistir como ser falante, de desejo, em meio à falta original.

Referências

Antelo, M. (2016). Idade do desejo. Intervenção proferida durante a Abertura das Jornadas da EBP-SP, Infância e adolescência: impasses e saídas, em 26 e 27 de agosto.

Lacan, J. (1999). O seminário, livro 5: as formações inconscientes. Tradução MD Magno, 2.ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. (1957-1958).

Lacan, J. (2012). A pequena diferença. In: O seminário, livro 19: ... ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (1971-1972).

Marques, M. (2013). Tornar-Se adulto: um desafio contemporâneo. In: A criança e o adolescente no século XXI. Topos, Ano XIII, n°13.

Miller, J-A. (2015). Em direção a adolescência. Intervenção de encerramento da 3ª Jornada do Instituto da Criança.

Recalde, M. (2016). Adolescência: tempo de espaço e escuta. Entrevista realizada durante a XI Jornada da EBP-SC, nos dias 14 e 15 de outubro.

Silva, R. F. (2016). Adolescência, a idade do desejo. Argumento do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.