Adolescente: um sujeito para mais tarde
Olivanildo da Silva Frazão e Adliany Rodrigues dos Santos
É comum pensarmos na adolescência na perspectiva cronológica, biológica ou psicológica, afirma Miller (2015), mas a teoria e a prática psicanalítica nos fazem repensar o modo no qual visualizamos esse fenômeno nas culturas ocidentais.
Olhamos para a adolescência e não necessariamente para o adolescente, quero dizer que comumente generalizamos os modos de vida de todos os sujeitos que tem entre 13 e 18 anos, idade legitimada pelas instituições e pelo Direito para delimitar o tempo cronológico da adolescência. Mais comum ainda é sentenciarmos os adolescentes a serem “rebeldes”, “confusos” e “problemáticos”, significantes que sutilmente silenciam as singularidades de quem está nessa “fase”.
A psicanálise não nega que para alguns a adolescência seja um momento conturbado, afinal, o entendimento é que o sujeito nesse lugar de adolescente vivencia uma fratura no seu desenvolvimento psíquico, pois não é mais a criança perfeita e nem o adulto idealizado; é o momento de perceber que a promessa do Édipo (de poder gozar livremente com seu corpo após a aceitação das interdições), simplesmente se trata de um ideal falsificado, crescer não é sinônimo de gozo pleno, pois esse gozo será sempre adiado para depois da formatura, depois da casa própria, depois do casamento, depois que arranjar um emprego. (Dantas, 2002)
Por sempre viverem o “logo mais”, é comum ocuparem o lugar de vazio, onde são comumente negligenciados, afinal são objetos de uma promessa, são “o amanhã”. Há algum tempo no Brasil, têm-se falado muito em um sintoma supostamente específico dos adolescentes, a automutilação. O que nos mobiliza a pensar, levando em consideração o relato de profissionais psis, é que há necessidade desses sujeitos se inscreveram no campo do Outro, a todo custo.
Ocupar o lugar do “depois” pode significar um não-lugar “hoje”? Não necessariamente, mas diz respeito a ocupar um lugar que não há escuta, não há lugar para exposição dos desejos, há apenas sabotagem. Ao chegar nessa questão, logo rememoro discursos muito comuns no cotidiano, “meu filho [adolescente] só vive trancado no quarto”, “minha filha é muito calada, não conversa comigo”, “eu queria que ele fosse mais aberto com a família”, entre tantos outros discursos com a mesma consistência; esses posicionamentos discursivos, considerando o emaranhado cultural em que vivemos, é possível pensar que as singularidades dos adolescentes não são respeitadas, já que para os familiares se trata de um “amanhã”, alguém que precisa conquistar para existir.
Desse não-lugar ocupado pelo adolescente surgem sintomas, que na maioria das vezes, mobilizam toda a família, falarei especificamente de um: a automutilação. Esse sintoma surge nos últimos anos como grande pavor das famílias, uma verdadeira “peste” que atormenta, trazendo à tona uma questão bastante interessante – o quanto as famílias têm silenciado os seus adolescentes, do quanto esses adolescentes têm buscado registrar, talhando na própria carne, que há um corpo pulsante, não somente por questões hormonais, mas se assim podemos dizer, por questões existenciais.
É muito comum que os familiares busquem uma resposta para o fim do sintoma, “eu preciso que essa menina pare de se cortar”, “eu tenho medo que ela faça o pior”, declarando em meias-palavras “cale este sujeito, eu não suporto “ouví-lo”. Aniquilar o sintoma, que nestes casos é o único modo de dizer, não seria o mesmo que calar o sujeito? Ao consultar a etimologia, nos é elucidado que
a palavra mutilação vem do baixo-latim mutilatio que significa “ato de mutilar, de cortar um membro” e ainda “ação de truncar, cortar, abreviar as palavras” . O verbo mutilare, designa “truncar as palavras, diminuir, reduzir, encurtar” ou mutilaloqui, que significa “pronunciar algumas frases truncadas, comer as palavras (Olimpio, 2011).
O que isso diz para a Psicanálise? Podemos afirmar que a automutilação é também uma maneira de se comunicar, abreviada, reduzida e encurtada. Em diversas situações a Medicina, o Direito, o Serviço Social e até mesmo a Psicologia, ao se depararem com a esse sintoma, tentam desesperadamente sucumbir o que há de mais legítimo no sujeito – sua palavra travestida de sintoma – a mais plena identificação e modo de localização no campo do Outro.
Quando pensamos na automutilação como ação de truncar, é preciso nos questionarmos, o que está sendo truncado? Uma possível simbolização da vida, a última via encontrada para legitimar que ainda há ser vivente? Que não se trata apenas de um sujeito que será, mas sim de um sujeito que é, hoje, agora?
Dantas, Nara Maria. Adolescência e psicanálise: Uma possibilidade teórica. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2002. Disponível em: link. Acesso em 07 de julho de 2017
Miller, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. 2015. Disponível em: link. Acesso em 07 de julho de 2017
Olimpio, Eliana. Automutilação: a forma dolorosa de falar. 2011. Disponível em: link. Acesso em 07 de julho de 2017

