Violência, suicídio e laço social: adolescer num tempo sem Pai
Philippi Rios da Silva e Geovani Cardoso dos Santos
A violência é compreendida como um acontecimento que torne possível de simbolizar o real quando a linguagem escapa, e assim, a violência falará desse intratável, do indizível. É no sentido desse indizível que a angústia se presentifica como aquilo que entala a fala, que não encontra saída através da cadeia de significantes (Coutinho, 2010).
Os sujeitos encontram no sintoma e na fantasia o ponto onde possam estabilizar sua existência, o ponto de basta, como proposto por Lacan (Stevens, 2013). Mas a fantasia não se faz suficiente para domesticar o que é da ordem do pulsional (Antelo, 2016). É nesse sentido, portanto, que o adolescente faz uso da violência como sintoma. Uma possibilidade de tratamento a angústia do não-dizer.
O que se nota, portanto, é que os atos violentos aparecem, na adolescência, como uma tentativa de reposta ao traumático encontro com o sexual da puberdade, como possibilidade de encontrar na transgressão uma fuga pulsional para a questão contemporânea do pai decaído, insuficiente para dar consistência ao existir e fazer laço social (Guerra & Pinheiro, 2010). É nessa fase se faz possível uma socialização, um modo de se agrupar com seus pares sintomáticos em fratrias de gozo (Miller, 2016). De acordo com Macêdo (2016) essas pequenas facções de gozo, se configuram como irmandades que fazem uso de uma única ordem simbólica, que tanto serve para diluir o campo do Outro, como para encarnar o seu corpo em uma satisfação direta e sem atravessadores (Miller, 2016).
Sendo assim, a adolescência, um não-lugar entre a infância e a adultez, aparece como um espaço inequívoco, que denuncia e escancara o Pai decaído, uma vez que é justamente nessa latência, que o seu lugar de autoridade declina (Viola & Vorcaro, 2015). A contemporaneidade, por sua vez, tem essa capacidade de produzir pais que não sabem ser pais e filhos que não sabem a quem buscar (Oliveira, 2016). É nesse sentido que aqui tentaremos entender o fenômeno da baleia-azul, atualíssimo, levando a uma espécie de movimento massivo de automutilação em jovens ao redor do mundo, e em casos extremos, de suicídio em massa. O jogo se instala na vida dos jovens através de uma ameaça: a de que toda a sua família sofrerá se ele se negar ao jogo. Dividido em cinquenta etapas que serão transmitidas por um mestre, o jogo gradualmente, dirá quais flagelos – físicos e emocionais o jovem terá de fazer em seu próprio corpo. Não podemos deixar escapar o emblemático papel mestre: de ditar as regras do jogo em troca de um gozo sintomático, nesse caso, de que pode salvar a sua família.
O ponto nodal nesse desejo não seria o de salvar a sua família. Com efeito, nos sujeitos suicidas, o sujeito busca um lugar onde possa fazer ponto no Outro, onde possa ancorar sua subjetivação, um pedido de socorro (Coutinho, 2010). Ao analista, resta perceber no discurso desse sujeito, pequenos momentos de despedida, onde o sujeito atesta a decisão tomada do autoextermínio. Na adolescência é mais comum que esse sintoma seja transmitido entre os pares, o que parece possuir um duplo efeito: o de apontar para uma saída possível para a angústia que faz corte no corpo e depois para a costura simbólica que é feita a partir do que é compartilhado e como o é.
Aqui cabe pensar “Os sofrimentos do jovem Werther” (1774, Von Goethe) – livro alemão que relata as infelicidades do jovem vítima de uma paixão proibida por uma moça já comprometida. Na época muitos jovens decidiram pelo suicídio enquanto seguravam um exemplar do livro, uma forma de deixar uma mensagem sobre o seu sofrimento, sobre a decisão de cair como objeto. Segundo Coutinho (2010), desde então, é notável que, através da imitação e da identificação, os jovens repetem os atos dos seus pares, o que ficou conhecido como o “efeito Werther”.
O suicídio se configura, desse modo, como uma alternativa possível de fazer laço social com o mundo, de garantir para esse sujeito suicida laço com o Outro (Miller, 2016). O suicídio não é o fato em si, mas um sintoma posto em ato, justamente porque a linguagem não se faz suficiente nem para fazer falar a angustia indizível, nem mesmo por silenciá-la. O sujeito se mortifica em prol de um bem maior, ele se entrega ao autoflagelo até a mortificação de si mesmo, em favor de uma causa perdida: à causa da inconsistência do nome-do-pai. Afinal, é na adolescência, com a imiscuição da fase adulta, que vemos os sintomas contemporâneos através de uma socialização sintomática.
Antelo, M. (2016). Adolescência, a idade do desejo. Disponível: link em 04 julho 2017.
Coutinho, A. H. S. A., (2010). Suicídio e laço social. Rev Reverso, ano 32, n 59, pp 61-70. Belo Horizonte/MG. Disponível: link em 05 julho 2017.
Guerra, A. M. C., & Pinheiro, M. C. M. (2010). A escrita da violência na adolescência. Disponível: link em 06 julho 2017.
Macêdo, L. F. de. (2008). Juventude e Trauma: a experiência de desenraizamento. In: Colóquio de encerramento da pesquisa internacional “Adolescências em tempos de guerra: modos de pensar, modos de operar” do Núcleo Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo - FAFICH-MG. Disponível: link em 04 julho 2017.
Miller, J-A. (2016). Em direção à adolescência. Disponível: link em 4 julho 2017.
Oliveira, B de. (2016). Entre as 13 razões e os 50 desafios: um resumo analítico da série Thirteen Reasons Why e dos desdobramentos do chamado jogo da Baleia Azul. Revasf, v6, n11, 172-175. Disponível:link em 04 julho 2017.
Stevens, A. (2013). Quando a adolescência se prolonga. Opção Lacaniana Oline, ano 4, n 11. Disponível: link em 05 julho 2017.
Viola, D. T. D., & Vorcaro, A. M. R. (2015). O problema do saber na adolescência e o real da puberdade. Revista Psicologia USP, v26, n1, 62-70. Disponível:link em 4 julho 2017.

