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Do sintoma familiar às famílias sintomáticas

Philippi Rios da Silva, Alexandre Ribeiro Monteiro e Geovani Cardoso dos Santos

Desde que Freud descobriu o inconsciente no final do século XIX, a Psicanálise tem se mostrado como uma possibilidade de escuta que leva em conta, fundamentalmente, o sujeito e o que ele fala sobre o seu sofrimento, o sintoma (ERLICH, 2008). Sendo para a Psicanálise, uma metáfora ou significante através do qual o sujeito expressa sua verdade: que "[...] não tem outra forma" diz Lacan (2008, p.357) em “A lógica do Fantasma”. Sendo assim, e compreendendo que a produção sintomática tem relações com a verdade, dizemos que há um saber no sintoma, um saber inconsciente sobre o sujeito, algo fora da lógica, desconhecido, e que aponta para história singular de cada um e as relações de subjetivação que incidem nela (DUNKER, 2008).

De acordo com Roudinesco (1998), devido a condição de ser de linguagem, a origem do sujeito está atravessada pelo significante que vem do Outro, palavra que marca o corpo do ser falante, orientando os seus atos e os seus destinos. Por isso, é fundamental para a criança encontrar em seus primeiro grandes Outros alguns significantes aos quais possa se agarrar e construir seu próprio modo de se relacionar com o mundo (DUNKER, 2008). É nesse sentido, que o discurso familiar se insere, como tesouro de significantes, refratário responsável por guardar as significações que irão inscrever o sujeito na cultura (KAMERS, 2004).

Sendo assim, o “mito familiar”, diz do lugar que a criança ocupa na família, incluindo as tramas imaginárias, as funções de pai, de mãe e de irmão e, sobretudo, o campo do desejo e do gozo (VITORELO, 2011). Nos textos preparatórios para o VII Enapol, Ernestro Sinatra (2016), nos diz que quando convocamos a família e seus assuntos, estamos convocando o sujeito, e os processos que lhe construíram, uma vez que cada parte de um determinado núcleo familiar carrega em si “as marcas do Outro” (pág. 3), desde as que foram até as que serão herdadas, são marcas forjadas entre laços de sangue e de palavra, de corpo e de letra.

Trazemos conosco as marcas indeléveis desses “fantasmas” e o gozo irreparável que eles extraem do sentido e o sentido que eles extraem do gozo (MOZZI, 2017). É nesse enredo que cada um se ajeita como pode, feitos à imagem e semelhança “dos encontros e dos desencontros

que se tramam em família, a sede privilegiada dos mal entendidos da subjetividade” (SINATRA, 2017, pág. 02).

Aqui não se fala da velha ou da nova família, fala-se da família formada pelo pai, pela mãe e pela criança em suas funções, ou melhor dizendo, fala-se de uma família composta pela Metáfora Paterna, pelo Desejo Materno e pela criança no papel central, a do mais-de-gozar, causa de desejo, o objeto a. Para além das distinções de gênero e de genitália, os papeis são desempenhados dentro da peça montada e construída na ficção de cada um, assim “as figuras do pai e da mãe não correspondem a uma realidade natural biológica, aos genitores, mas ao mito libidinal necessário construído diante do impossível” (FUENTES, 2016, pág. 32).

Então temos os personagens desse enredo edípico, o desejo materno, a metáfora paterna e a criança, essa intitulada por Lacan (1968) de “sintoma do casal familiar” e como “fetiche” da mãe. Se a criança é sintoma da família é por estar envolvido nessa trama familiar onde temos do lado da função materna a fonte dos primeiros significantes, do desejo voraz e enigmático, do lado da função paterna uma metáfora, o articulador entre o desejo e a lei, que ordenará a cadeia de significantes e a criança, como sintoma e objeto dessa relação, busca o seu espaço nesse campo familiar para finalmente emergir enquanto sujeito. Por tanto, a criança como produto do discurso do Outro é acometida por um desejo anterior ao seu próprio. Passa a construir os sintomas enquanto retorno do recalcado como uma via possível para lidar com a angústia da castração, do falta-ser.

Contudo, Lacan em 1938 fala do enfraquecimento do édipo e de suas amarrações e também do enfraquecimento da imagem paterna, diante das novas socializações do novo tempo, essas horizontais e não mais verticais como nos tempos da monarquia e da soberania religiosa cristã (FUENTES, 2016). Desse modo, foi destinado ao saber científico e seu avanço tecnológico assim como ao campo jurídico essa autoridade paterna perdida na contemporaneidade (FUENTES, 2016), e com isso possibilitando as novas formas sintomáticas derivadas desse enfraquecimento paterno.

Nos contemporâneos modos de gozar, vemos novas modalidades de se situar frente ao que esse Outro demanda: a anorexia, a bulimia, as toxicomanias são exemplos. Estar submetido aos discursos do Outro, atravessado por ele, não é sem consequência (BASSOLS, 2016, pág. 9) . O superego de nossa época, fruto do pai decaído não é outro se não o imperativo do gozo. O capitalismo oferta, o pai não barra, a criança goza. O encontro com a droga vem operar contra a castração. “É o coração da operação toxicômana: mais gozo, menos castração” (DIANNO, 2016, pág. 26).

É pela via do sintoma que o sujeito se posiciona, mas é através do Sinthoma que o sujeito constrói a sua singularidade. O sinthoma é aquilo que é de mais íntimo no sujeito, é para onde aponta a sua subjetividade, a sua forma individual de lidar com os impasses da sexualidade e com a saída do Édipo. Quando Lacan fala de sinthoma, ele fala também do Nome-do-Pai, e a esse último ele diz ser “semblante por excelência”. Deve se entender o Nome-do-Pai como um semblante, “não o nome próprio, mas o nome como ex-sistência” (Lacan, 1988, citado por Quinet, 2015), de tal modo que não há Um Nome-do-pai, e à medida que esse Nome-do-Pai se pluraliza, ele se individualiza. É nessa individualização do Nome-do-Pai, colocado como sinthoma que o sujeito faz um nó que enlaça os seus registros Real-Simbólico-Imaginário.

É a partir do Um sozinho que se pode viabilizar o processo analítico, pela via do que é singular de cada sujeito, do gozo órfão como nos diz Fuentes (2016). Para o processo de separação é preciso que o sujeito queira construir algo para além do discurso do Outro familiar. “Falar a língua do Outro, sim, mas para dizer o que o Outro não quer escutar”1.

Referências

BASSOLS, M. Famulus. Texto preparatório para o VIII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana – ENAPOL. In: Revista FAPOL Online, 2016. Disponível em: link Acesso em 02 setembro 2017.

DIANNO, E. Pais tóxicos, filhos intoxicados. Texto preparatório para o VIII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana – ENAPOL. In: Revista FAPOL Online, 2017. Disponível em: link Acesso em 02 setembro 2017.

DUNKER, C. O nascimento do sujeito. Constituição psíquica e universo simbólico. Revista mente e cérebro.2. ed. revista e atualizada. São Paulo, Duetto Editorial, pp. 15-25, 2008.

1 link

ERLICH, Hilana; ALBERTI, Sonia. O sujeito entre psicanálise e ciência. Psicologia em Revista, v. 14, n. 2, p. 47-63, 2008.

FUENTES, M. J. S. As ficções de família e o gozo órfão. Texto preparatório para o VIII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana – ENAPOL. In: Revista FAPOL Online, 2016. Disponível em: link Acesso em 02 setembro 2017.

LACAN, J. A lógica do fantasma. Recife, Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2008.

LACAN, J. (1969). Nota sobre a criança. In: ____. (2001) (Org.). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 269-270.

MOZZI, V. Enredos de Família, seus assuntos na prática. Texto preparatório para o VIII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana – ENAPOL In: Revista FAPOL Online, 2016. Disponível em: link Acesso em 02 setembro 2017.

KAMERS, M. O discurso parental e a sua relação com a inscrição simbólica no universo simbólico dos pais. Psicologia, Ciência & Profissão, 24, 3, 40-47.

QUINET, A. Édipo ao pé da letra: Fragmentos de tragédia e psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

ROUDINESCO, E. A família em desordem. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

SINASTRA, E. Assuntos de família: o Outro em Um. Texto preparatório para o VIII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana – ENAPOL. In: Revista FAPOL Online, 2016. Disponível em: link Acesso em 02 setembro 2017.

VITORELLO, M. A. Família contemporânea e as funções parentais: há nela um ato amor?. Psicol. educ., São Paulo , n. 32, p. 7-24, jun. 2011 . Disponível em link. acessos em 03 set. 2017.