O Filhinho da mamãe: a relação mãe/criança na família monoparental feminina e suas consequências subjetivas.
Quezia Menezes da Paz
O que temos hoje, são famílias formadas seja por técnicas de reprodução, adoção, ou com as novas famílias monoparentais e/ou homoparentais, é possível observar, como afirma Bassols (2016, p 9) famílias feitas “sob medida do fantasma de cada um”, e que consequentemente velam ou revelam o modo de gozo, singular de cada ser falante inserido nela. Sendo assim, pretendo trazer contribuições acerca das constituições de famílias monoparentais femininas destacando o modo de gozo estabelecido nessa relação mãe/criança, uma vez que temos a posição de “filhinhos da mamãe” como um sintoma dessa nova modalidade de família, como pontuou Jésus Santiago nas entrevistas em vídeo produzido para o VIII Enapol.
As famílias, como um sistema simbólico e aparato de gozo, de acordo com Farias (2017) funcionam para contornar a não relação sexual, “regulando esse desencontro que deu origem a um sujeito”. Na família se constroem os mitos, que sempre tem algo de “verdadeiro”, e tentam dar sentido a existência do ser falante, é a partir dele que cada um inventa um modo de habitar no mundo (MOZZI, 2016). Bassols (2016, p 9) afirma:
O gozo feminino – implícito de múltiplas formas nas siglas DM, que significam naquela fórmula o Desejo da Mãe – finca as raízes desse desejo materno em um campo que está sempre além, ou mais próximo, do gozo fálico. É o campo do gozo feminino, o gozo do Outro, que habita em toda unidade familiar (...) um modo de resguardar o segredo do gozo como inominável, inclusive abjeto. (...) Digamos então que é neste Outro campo do gozo, mais além ou mais aquém do falo, onde reside o segredo de toda família, seu principal assunto, esteja ele mais ou menos organizado pelas leis clássicas do parentesco. É o segredo do casal seja homossexual ou heterossexual em sua forma manifesta, monoparental ou não, mas velando sempre o Héteros do gozo feminino. Hoje em dia, nos deparamos com novas formações familiares que se organizam ao redor deste segredo do gozo como Héteros, como heterogêneo a qualquer organização governada pelo significante do Nome do Pai.
A família monoparental feminina pode ser percebida como uma das consequências do declínio do Nome-do-pai, que seria um agente metaforizador desse desejo de mãe, e regulador do gozo (FARIAS, 2017). A metáfora paterna, como afirma Miller (2014) provoca uma divisão nesse desejo para que o objeto criança não seja tudo para o sujeito materno, e que o desejo da mãe se dirija para um homem e seja atraído por ele. Nessas famílias, geralmente as mulheres dizem não precisar de um homem e/ou um pai para terem seus filhos, e sustentam seu desejo de mãe por meio da reprodução assistida ou pela adoção. As mulheres trocam o falo pelo filho introduzindo na lógica das leis do parentesco um elemento singular que não pode ser reduzido agora à pura ação do significante (BASSOLS, 2016). O que pode ser elaborado pela psicanálise na relação mãe/criança a partir daí já que hoje, os vínculos familiares se formam e se desfazem segundo as formas cada vez mais singulares do gozo sintomático?
Considerando o texto de Miller “a criança entre a mulher e a mãe,” o objeto criança não somente preenche como também divide, no sujeito feminino, a mãe e a mulher, ou seja, não ocupa esse lugar de toda para a fantasia materna e faz com que a mãe também deseje outras coisas além dele, é o que Miller nomeia como metáfora infantil. Contudo, sem a metáfora paterna, para reprimir o desejo de mãe, submetendo-a a lei, na relação mãe/criança, esse amor materno pode acabar por fetichizar a criança como objeto todo da fantasia, fixando-o nessa identificação fálica. Nessa relação, a mãe utiliza como suplência desse não-todo sobre o qual repousa o gozo da mulher, encontrando como rolha, seu filho, o objeto infantil (LACAN, 1972/1973).
Se a criança, por sua vez, não divide, ou seja, entra em uma relação dual com a mãe, sendo esse objeto fetiche da mãe, pode chegar a ocupar uma posição psicótica, o “filhinho da mamãe” nessa relação, sendo, como pontua Miller (1998, p 7), mesmo “em uma fraternidade numerosa, o único filho que é objeto da afeição materna”. Sendo assim, as devastações subjetivas que podem surgir se repercutem tanto na mãe quanto na criança, pois quanto mais a criança preenche a mãe, mais ela se angustia já que não há à falta a ser simbolizada, implicando em uma mãe que não deseja, ou deseja pouco enquanto mulher, e na criança uma “marionete da mãe”- quase como um ser inanimado, compatível com sua fetichização (MILLER, 1998).
No entanto, é com esse real do gozo que reordena a família com que o psicanalista vai se deparar, a partir desse enlaçamento sintomático Bassols (2016, p. 9) comenta que:
Aos enredos atuais das novas formas de parentesco que configuram o grupo familiar é preciso acrescentar os enredos que as novas formas de gozo introduzem para fazer deste segredo o umbigo do real, ao redor do qual giram as novas formações familiares e todas as suas variações. (...) Já aos sintomas clássicos que se organizavam de acordo com o discurso da novela familiar patriarcal faz-se necessário agregar, agora, a dimensão do sinthome, na qual a psicanálise localiza o mais singular e opaco do gozo do sintoma, aquilo que o torna absolutamente incomparável ao outro. Trata-se então, no nosso estudo dos novos assuntos e enredos da família, de passar de uma clínica do sintoma – como articulação significante do segredo familiar – a uma clínica do sinthome – como forma singular do gozo no ser falante. Cada um é, de fato, fruto do mal-entendido do gozo familiar; mal-entendido do qual Lacan se declarava traumatizado pelo fato de ser falado por ele antes mesmo de chegar a falar dele.
Associacion Mundial de Psicoanalisis. VIII ENAPOL: Assuntos! # 22 - Diversas perspectivas sobre o familiar. Julio, 2017. Disponível em link
BASSOLS, Michel. Famulus. Lacan 21 revista Fapol online, v. 02. Disponível em link
FARIAS, Cristina. Assuntos de família. 2017. Disponível em link
MILLER, Jacques-Alain. A criança entre a mulher e a mãe. Opção lacaniana, v. 21, p. 7-12, 1998.
MOZZI, Viviane. Enrredos de família...seus assuntos na prática. Disponível em link

